"Se o Amado fosse exposto à visão exterior,

Não suportarias nem o abraço nem a forma.

Insiste em teu pedido, mas com moderação;

Uma folha de relva não pode perfurar uma montanha.

Se o sol que ilumina o mundo chegasse mais perto,

o mundo seria consumido.

Fecha tua boca e cerra os olhos a estas coisas,

Para que a vida do mundo não se torne um coração a sangrar.

Não busques mais este perigo, este derramamento de sangue;

Daqui em diante, impõe silêncio ao "Sol de Tabriz"".

Ele disse: "Tuas palavras não têm fim.

Agora conta toda a tua história desde o princípio".    (Rumi)



Bom Deus...

Tenho a impressão de que a dor vem, chega impiedosa, sem pedir licença e não vai embora, não se retira sem deixar seu rastro, sua marca, seu sinal de vitória ou rendição.
A lembrança hoje me despertou e me contou muitas histórias das quais eu era um completo desconhecido, mas a personagem principal. Como é triste ver a certeza de um velho amigo, de esperança de reatar-se ver ruir-se a um descrédito, desesperança. A força da realidade é clara. É inevitável render-se a ela.

Nesta vida há perdas que serão inesquecíveis que com o tempo vão se tornando agridoces até serem dóceis, aceitáveis não sem aquele olhar silencioso de resignação e tristeza. A tristeza por algo que teria realmente valido a pena tem um quê de beleza, de eternidade, de esperança que nunca se dobra mas momentaneamente tem de dobrar-se.
A realidade está aqui, bem diante de mim, me mostrando o que eu jamais teria visto sozinho, se não pelos olhares misericordiosos dos que me amam. Sabemos tão pouco por apenas esses par de olhos limitados... Em dois, três ou quatro, nos tornamos tanto que até pensamos nos protegermos do mundo inteiro dentro dos nossos quatro pares de olhos. Bendito sejas Tu pelos verdadeiros amigos! Bendito sejas pelas forças que me dás para reconhecer aqueles que não são.

Feito mouro, violento sanguinário quando algo lhe pertence e é roubado, assim reagia minha alma diante de uma injustiça sobre minha vida interior, meus segredos, meus mistérios... Hoje seguem os mesmos, mas o mouro hoje cala, resignado diante dos limites de tantos anos que se esbarraram em tantos outros que suportaram e que silenciou, parou, não mais quis, não mais interferiu, não mais pediu, não mais esperou, não mais lutou, não mais viveu para fora... O “mouro” se converteu à sua própria alma, começou do começo e ninguém mais o reconhece, a não ser aqueles que lhe querem bem, sem garantias, sem ganhos, sem interesses, amam e fim. O mouro esmoreceu, deixou ruir a estátua de sal e nasceu de novo. É esquecido e verdadeiramente lembrado, é cobrado e verdadeiramente perdoado, é acusado e verdadeiramente amado. A contradição é o pano de fundo que o faz viver e jogar velhas pedras de estimação no meio do nada. De lá vieram, para lá voltam sem que gastem um segundo a mais de uma vida que nunca às pertenceu.

O “esmourecido” busca a vida, secreta, escondida mas única, verdadeira, sua. Nessa alma secreta a vida volta aos poucos a ser forte e decidida.
Ter errado é doloroso e humilhante, voltar a errar no mesmo lugar seria a morte ainda viva. Não poderia. A realidade está aqui, diante de mim. A alma pede espaço, apoio e vez. Não há como seguir a mesma, mas os que antes acreditavam e recebiam os reflexos, julgam sombra o que antes juravam ser luz e são impiedosos hoje ao menor sinal de sombra, mas de uma nova vida, jamais da antiga. Oferecemos o que temos, o que somos, o que amamos...

Hoje busco a piedade na tua presença, pois a encontro no olhar de poucos e, é o suficiente para me fazer ver que se eles a tem, vem de Ti, pois não viria de ninguém mais alem de Ti!
Deus poderoso e eterno... tem misericórdia de mim!
Eu muito errei, tentando muito.
Eu muito acertei dando tudo.
Mas tudo dependerá da tua graça, do teu julgamento, do teu amor.
Deus poderoso, manso, amoroso... tem misericórdia de mim!
Sou teu, mesmo sem querer... mesmo sem merecer e muito sem saber ser... mas sei que sou e isso me basta.

 
Ah! moveste céu e terra amado...
tenho medo desse abismo."
E ele: " sou tua alma e coração.
Descansa no meu peito de jasmim!"
E eu: " Se tu levaste minha paz como posso me calar". Respondeu:
"És um gota de meu oceano:
cheia de pérolas, a concha da alma."
(Rumi)

[...]Quando eu era vivo e tinha um coração humano respondeu a estátua - não sabia o que eram lágrimas, pois vivia no Palácio de Sans-Souci, onde é vedado o ingresso à dor. De dia brincava com os meus companheiros no jardim, e à noite dirigia a dança no grande salão de baile. Em roda do jardim corria um muro muito alto, mas nunca me lembrei de perguntar o que se passava além dele. Tudo à volta de mim era belo. Os meus cortesãos chamavam-me o Príncipe Feliz, e eu era feliz, de fato, se o prazer é felicidade. Assim vivi e assim morri. E agora, depois de morto, colocaram-me nesta coluna, tão alto que posso ver toda a fealdade e miséria da minha cidade; e, embora o meu coração seja de bronze, não posso deixar de chorar.[...]

O Príncipe feliz - Oscar Wilde

 

Ultimamente ando sem palavras para expressar o que sinto...  está tudo  um

pouco  “escorregadio” fora do controle das minhas mãos...  não posso mentir pra mim mesmo... nem para os  que me amam...  na verdade. Eu sou um homem de pouca fé... isso mesmo!!   E ultimamente.. ando praticamente “afogado” no mar da vida... (era pra eu caminhar... rsrs )   e agora num momento tão desisivo da minha vida ando caindo direto nesta cilada.. quer dizer dizer nesta prova de andar sobre este mar da “fé”...e eu nuca pensei que  fosse tão difícil as vezes... mas eu não posso é permitir que tudo isso retire o meu olhar da minha meta... porque “o amante que tudo  chama a si me chama e eu devo partir... senão eu me limitaria a um simples molde...” Uma só coisa eu peço: é que me livres de mim mesmo enquanto é tempo!
que eu seja  forte de verdade para ir além.. além.. sempre além!!! Além de minhas “reações”, além das marcas que na minha fraqueza me (ainda hoje...) dominam e, com a força da tua vontade, porque da minha eu já me esqueci... faz-me livre, mostra-me o teu anseio...  deixa-me ver o que queres... pois no misterio do teu sem-fim... me encontro... e mais que nunca preciso da tua face amigo... pois como diz um poema.. “ ardendo por teus lábios amado.. meu coração transborda de minha boca...”

 

 

 

 

 

no misterio do teu sem-fim...

mostra-me o teu anseio...

deixa-me ver o que queres...

faz-me livre

na tua face amigo...

me encontro... faz-me livre no misterio...

deixa-me ver

mostra-me o teu anseio...

deixa-me ver... tua face amigo...

enfim...

 

feliz natal a todos...

esse ano foi um pouco pesado cheio de grandes pedras... mas.. desistir jamas.. nunca...! ano de grande crescimento humano e auto conhecimento...!  sem mascaras..! rsrs é que sofrer é muitas vezes a melhor coisa da vida sabe.. a sensação de estar vivo nestas horas é impressionante! minha alma só queria calar... e como diz um poeta:"Quando eu for, um dia desses, Poeira ou folha levada No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada Invisível, delicioso... Que faz com que o teu ar Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!).. srsrrssr
mas foi tambem ano de muitas graças!!! de grandes descobertas e amizades... enfim! hj estou muito fliz.. e a espera da minhasolidão povoada!  

 

grande abraço a todos... !!!!

 

 

Chama Saborosa (São João da Cruz)

Chama Saborosa

Minha alma está desprendida de toda a coisa criada
E sobre si levantada nunca saborosa vida,
Só em seu Deus arrimada por isso já se verá
A coisa que mais estimo que minha alma se vê já
Sem arrimo e com arrimo, e com arrimo

E embora trevas padeço nesta vida mortal,
Não é tão grande o meu mal,
Porque se de luz careço
Tenho vida celestial, celestial,
Porque o amor dá tal vida
Quanto mais cego vai sendo,
Que tem a alma rendida sem luz
e ás escuras vivendo, vivendo.

Faz obra tal o amor
Depois que o conheci,
Que se há de bem ou mal
Em mim tudo se faz de um só sabor.
E a alma transforma em si e assim
Sua chama saborosa a qual em mim
Estou sentindo, apressa sem restar
Coisa, todo me vou consumindo,
Todo me vou consumindo.

Sem arrimo e com arrimo,
Sem luz e às escuras vivendo!
Todo me vou consumindo

a todos os meus poucos e grandes amigos!!!!

La Cose Che Vivi (tradução)

Laura Pausini

As coisas que vives
Laura Pausini

A amizade é algo que atravessa a alma,
é um sentimento que não te abandona.
Não te digo como, mas ocorre justo
quando duas pessoas vão voando juntos
Sobem ao alto sobre as outras pessoas,
como dando um salto na imensidão.
E não haverá distância, não haverá, nem desconfiança
Se permaneces em meu coração agora e sempre.

Porque em cada lugar que você estiver
porque em cada lugar que eu estiver,
as coisas que vives, eu também viverei.
Porque em cada lugar que você estiver
nos encontraremos unidos
um nos braços do outro, é o destino.

Na mesma rua, debaixo do mesmo céu,
ainda que tudo mude não nos perderemos.
Abre bem os braços, mande-me um aviso,
não te resta dúvida, eu te encontrarei.
Já não estarás mais sozinho,
eu estarei continuando o vôo
que te leve com meu coração,
Agora e sempre.

Porque em cada lugar que você estiver,
porque em cada lugar que eu estiver,
as coisas que viveS, eu também viverei.
Porque em cada lugar que estiver
não nos resta mais que um caminho,
só haverá dois amigos, tão unidos.

Acredite em mim, não te atrevas a duvidar
de todas as coisas que vives.
Se são sinceras como você, e eu,
você sabe que jamais terminarão.

porque em cada lugar que você estiver,
porque em cada lugar que eu estiver,
as coisas que vives, eu também viverei.
Porque em cada lugar que eu estiver, que estiver,
porque em cada lugar que eu estiver,
E que você estiver
você me levará contigo dentro do coração

Porque em cada lugar que você estiver
nos encontraremos unidos,
um nos braços do outro,
É o destino, é o destino
porque em cada lugar que você estiver,
porque em cada lugar que eu estiver,
Aas coisas que vives,
Eu também viverei

 

Um discurso maravilhoso

“ Subi do mosteiro para cá [para o eremitério] ontem à noite chapinhando pelo milharal, rezei as Vésperas e coloquei aveia no fogareiro para o jantar. A aveia ferveu e derramou enquanto eu ouvia a chuva e tostava um pedaço de pão no fogo a lenha. A noite tornou-se muito escura. A chuva rodeou todo o chalé com seu enorme mito virginal - todo um mundo de sentido, segredo, silêncio, rumor. Pense nela: todo aquele discurso precipitando-se, vendendo nada, julgando ninguém, empapando a espessa camada de folhas mortas, encharcando as árvores, enchendo d’água as ravinas e recantos do bosque, lavando os lugares onde os homens desnudaram a encosta! Que coisa é sentar-se absolutamente só na floresta à noite, acariciado por esse discurso maravilhoso, ininteligível, perfeitamente inocente, o discurso mais reconfortante do mundo, a fala com que a chuva, sozinha, cobre o perfil das montanhas, e a fala dos arroios por toda parte, em todos os sulcos!

Ninguém a começou, ninguém a deterá. Esta chuva falará o tempo que quiser. Enquanto ela falar, vou ouvir.”

Raids on the Unspeakable, de Thomas Merton
(New Directions Publishing Co., New York), 1964, p. 9-10

Uma vida que une

Uma vida que une

[Transcrito de uma apresentação oral]

“ Havia um velho padre em Gethsemani – uma daquelas pessoas que existem em todas comunidades muito grandes – que era visto como uma espécie de sujeito engraçado. Na verdade, ele era um santo. Sua morte foi bela e, depois que morreu, todos perceberam o quanto o amavam e admiravam, embora ele tivesse feito, constantemente, tudo errado durante sua vida. Era absolutamente obcecado por jardinagem, mas por muito tempo teve um abade que insistia em que ele devia fazer qualquer coisa, menos jardinagem, por uma questão de princípio; pois fazer o que você gostava significava seguir a vontade própria. O Padre Stephen, contudo, não conseguia deixar de mexer no jardim. Era proibido, mas a gente o via plantando coisas sub-repticiamente. Por fim, quando o velho abade morreu e veio o novo, ficou tacitamente entendido que o Padre Stephen nunca faria nada além da jardinagem, e assim o incluíram na lista de tarefas como jardineiro, e ele só fazia jardinagem de manhã à noite. Nunca ia ao Ofício, nunca ia a nada, apenas cavava em seu jardim. Ele colocou toda a sua vida ali e todos meio que riam disso. Mas ele fazia coisas muito boas – por exemplo, quando os teus pais vinham te visitar, e você ouvia um farfalhar entre os arbustos como se um alce estivesse se aproximando, o Padre Stephen surgia apressado com um grande buquê de flores.

Na festa de São Francisco de três anos atrás, ele estava vindo do jardim próximo da hora do jantar, entrou em outro jardinzinho, se deitou no chão sob uma árvore, perto de uma estátua de Nossa Senhora, e alguém passou e pensou: ‘o que será que ele está fazendo agora?’ E o Padre Stephen olhou de volta, para cima, acenou e morreu. No dia seguinte, no seu funeral, os pássaros cantavam, o sol brilhava e foi como se toda a natureza estivesse ali com o Padre Stephen. Ele não teve de ser diferente dessa maneira: essa foi a maneira como aconteceu. Este foi um desenvolvimento frustrado, desviado para um canalzinho engraçado, mas o verdadeiro sentido de nossas vidas é desenvolver pessoas que realmente amem a Deus e irradiem amor, não no sentido de que sintam muito amor, mas de que simplesmente sejam pessoas cheias de amor que mantêm a chama do amor acesa no mundo. Para isto, têm de ser pessoas plenamente unificadas e plenamente elas mesmas – pessoas de verdade.”

Thomas Merton in Alaska, de Thomas Merton
(New Directions Publishing Corp., New York), 1988, p.148-149
 
 
Dentro deste novo amor, morra
Teu caminho começa no outro lado
Torna-te o céu
Derruba a parede da prisão
Escapa.
Saia como alguém subitamente renascido na cor
Faça isso agora
Tu estás coberto pela grossa núvem.
Escorrega para o lado. Morra
e permanença em silêncio. O silêncio é o sinal mais certo
que tu morreste.

Tua vida antiga estava correndo em frenesi
para longe do silêncio.

E a muda lua cheia
agora aparece.

[RUMI]

...

Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes,
sorri comigo, como um botão de rosa.

Entendamo-nos pelos pensamentos,
sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca,
contemo-nos todos os segredos do mundo,
como faria o intelecto divino.

Fujamos dos incrédulos
que só são capazes de entender
se escutam palavras e vêem rostos.

Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um,
falemos desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão: "toca",
se todas as mãos são uma?

Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fechemos pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

Jalaluddin Rumi

Se não falas

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

(Tagore)

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Poema de despedida

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

(Tagore)

Celina... tudo posso!
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